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Deficiência de ornitina transcarbamilase: diagnóstico neonatal

Cristina Araujo Guimarães Ulhôa, Cynthia T. Barrett
J Pediatr (Rio J) 1999;75(2):131-4
RESUMO

Objetivo: Alertar os pediatras para a deficiência de enzimas do ciclo da uréia. Essa patologia deve ser lembrada, pois o prognóstico do recém-nascido está diretamente relacionado com a precocidade do diagnóstico e a instituição de uma terapêutica adequada.

Método: Apresentamos um paciente que, após 48 horas de vida, iniciou com quadro de sonolência, letargia, vômitos e convulsão, tendo-se pensado, inicialmente, em sepsis neonatal. Após excluído esse diagnóstico, foi diagnosticada deficiência de ornitina transcarbamilase (OTC).

Resultado: O paciente foi tratado e acompanhado até a idade de um ano, quando foi submetido ao transplante hepático com boa evolução e controle da doença.

Conclusão: A deficiência de ornitina transcarbamilase (OTC), é rara, porém muito grave. O recém-nascido que apresentar um quadro clínico semelhante ao de um recém-nascido séptico, porém sem contexto infeccioso, deve ser investigado para essa patologia, pois o prognóstico está diretamente relacionado com a rapidez do diagnóstico e do tratamento.

Introdução

A deficiência da ornitina transcarbamilase (OTC) é a deficiência mais comum no ciclo da uréia; sua incidência é de 1:50.000 recém-nascidos, sendo sua herança genética ligada ao cromossoma X.

A deficiência dessa enzima acarretará um aumento do nível da uréia plasmática, podendo provocar danos irreversíveis ao recém-nascido, se este não for diagnosticado e tratado a tempo.

Essa patologia afeta recém-nascidos inicialmente hígidos e está relacionada com a intolerância protéica, iniciando sua sintomatologia entre 48 horas e uma semana de vida. Após a introdução da dieta, os recém-nascidos apresentarão sintomas de letargia, sonolência acentuada, hipotonia, vômito e instabilidade térmica. Com o quadro descrito acima, o primeiro diagnóstico clínico a ser pensado é o de sepsis neonatal, porém o recém-nascido não apresentará nenhuma resposta ao tratamento com antibioticoterapia. Neste caso deve ser solicitada dosagem sérica da amônia para se excluir ou confirmar o diagnóstico de patologias do ciclo da uréia.

Relato de caso

C.V., sexo masculino, nascido em 21.08.96, parto cesárea. Mãe G5 P4-5, idade gestacional 40 semanas pela DUM e exame físico. Exames de pré-natal: VDRL negativo, rubéola imune, PPD positivo com RX de tórax normal, GS A, Rh positivo, Du negativo.

A mãe apresentou diabetes gestacional aos 8 meses. Fez uso de insulina com controle adequado do diabetes.

Foi realizada a dosagem sérica de alfa-feto proteína materna, que apresentou-se diminuída, porém com amniocentese normal.

Ao nascimento, a criança apresentou Apgar 1’8 e 5’9. Peso de nascimento de 3.790 gramas. Ao primeiro exame, apresentava-se sem qualquer alteração.

Após 48 horas de vida, quando receberia alta hospitalar, foi notado que o paciente apresentava-se ictérico, com sonolência acentuada e deficiente aceitação alimentar, sendo assim transferido para o CTI neonatal para exclusão de sepsis. Foi colhido sangue para dosagens de bilirrubina, hemograma, solicitada urocultura e tentada punção lombar, esta sem êxito.

Os resultados dos exames foram normais, exceto pela bilirrubina, que se encontrava alterada Bt: 7, Bi: 0,9, Bd: 6,1.

Introduziu-se empiricamente ureidopenicilina (mezlocillin) e gentamicina, com dose para cobertura de SNC. Neste mesmo dia, após introdução venosa de fluidos e antibioticoterapia, o paciente continuava letárgico, sem aceitar dieta, hipotônico e hipotérmico. Após 24 horas, apresentou crise convulsiva focal (membro superior direito), sendo iniciado fenobarbital 20mg/kg, seguido da dose de manutenção. Foi feita tomografia cerebral, que apresentou resultado normal.

O paciente apresentou um quadro de apnéia e bradicardia, sem qualquer resposta ao uso de máscara, sendo intubado e colocado em ventilação mecânica.

O paciente foi transferido para o Centro Médico da UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles), nos Estados Unidos, para esclarecimento diagnóstico, onde foram repetidos os exames e acrescentada a dosagem sérica da amônia, cujo resultado foi 1.284 mmol/l (valor normal de até 200 mmol/l). Com esse resultado, foi iniciado estudo metabólico, tendo apresentado citrulina muito baixa e arginina no limite inferior da normalidade, consistente com o diagnóstico de deficiência de OTC.

Realizado tratamento de urgência para diminuição do nível da amônia (exsanguíneo-transfusão e diálise peritoneal), com queda progressiva dos níveis da amônia.

O paciente foi colocado em nutrição parenteral total com nefroamina, introduzindo-se benzoato de sódio 250mg (para diminuição do nível da amônia), cisaprida, hidrocloreto de arginina 0,3meq 3 vezes ao dia (para a diminuição do nível de nitrogênio plasmático), fenobarbital, levocarnitina 200mg 2 vezes ao dia (para ganho de peso, necessário para antecipar o transplante).

Após 48 horas de introdução da terapêutica, o paciente apresentou superficialização do quadro comatoso, com movimentos espontâneos. O valor da amônia nesta data era de 120 mmol/l.

Comentário

Dentre as enzimas que fazem parte do ciclo da uréia, a deficiência de OTC é a mais comum, sendo sua incidência de 1:50.000 recém-nascidos.

A OTC tem sua herança ligada ao sexo, sendo as mulheres carreadoras da doença (lionização desfavorável do cromossoma X). A alteração genética está localizada em Xp21.1(1,2).

A doença geralmente manifesta-se após 48 horas de vida, quando já ocorreu ingestão protéica(1). Essa patologia ocorre em crianças a termo, que se apresentam normais ao nascimento, possibilitando o diagnóstico diferencial com hiperamonemia transitória, que geralmente afeta recém-nascidos pré-termo e não deixa seqüelas(5).

A criança apresenta-se inicialmente letárgica, com dificuldade para alimentar-se e torporosa. Com o quadro descrito acima, o primeiro diagnóstico a ser pensado é o de sepsis neonatal. No entanto, a história materna é negativa para infecção, o pré-natal sem qualquer alteração, e a criança não responde ao tratamento com antibioticoterapia. Quando o diagnóstico é retardado, a criança pode evoluir com letargia acentuada, encefalopatia metabólica e coma. Outros sinais de disfunção do SNC são convulsão, hipotonia, edema cerebral e hemorragia intracraniana, muitas vezes com lesão irreversível do SNC(6,7).

A biópsia hepática em pacientes portadores dessa patologia demonstra formações vesiculares com ou sem áreas de fibrose, com grau variável de comprometimento hepático(1,6,8,9).

O teste do alopurinol ajuda a diagnosticar os pacientes portadores da deficiência de OTC, principalmente aqueles com início tardio da doença. O teste é realizado através da ingestão do alopurinol, com posterior dosagem do ácido orótico na urina, confirmando ou excluindo patologias que fazem parte do ciclo da uréia. O oxipurinol-ribonucleotídeo, que é derivado do alopurinol, inibe a 5-fosfato orotidina, resultando em orotidinúria e acidúria orótica(8,9). Esse método é seguro e com pequena chance de resultado falso-negativo(10).

Diagnóstico laboratorial

Achados laboratoriais anormais incluem aminoácidos plasmáticos, metabólitos urinários (pirimidina), aumento da uréia plasmática, hiperbilirrubinemia direta e aumento das trasaminases.

Achados laboratoriais específicos da doença são diminuição de citrulina e arginina plasmáticas, acúmulo de ácido orótico na urina (hiper oroticacidúria), hiperamonemia progressiva e gasometria arterial com alcalose respiratória primária.

O diagnóstico pré-natal pode ser feito através da análise de DNAc OTC obtido por amostra de vilosidade coriônica, amniocentese ou biópsia hepática fetal(11,12).

Tratamento

A providência imediata a ser tomada é reduzir o nível sérico da amônia, que geralmente encontra-se muito elevado, causando danos irreversíveis ao recém-nascido. Essa redução da amônia é feita através de diálise peritoneal ou diálise veno-venosa contínua (pela dificuldade de se fazer hemodiálise em recém-nascidos) e exsanguíneo transfusão(13,14).

Kodama et al.(15) demonstraram que o uso venoso de arginina leva a uma melhora importante da hiperamonemia em pacientes com deficiência de OTC com manifestação tardia da doença.

Após a redução do nível da amônia, deve ser utilizado Benzoato de Sódio e Fenil-acetato de Sódio, aminoácidos essenciais, reintroduzindo-se a dieta com baixo teor protéica(16).

O tratamento prospectivo com restrição protéica e combinação de Benzoato de Sódio com Fenil-acetato de Sódio tem sido utilizado em recém-nascidos com diagnóstico de deficiência de OTC, sendo observado um desenvolvimento neurológico favorável(17).

O tratamento curativo é o transplante hepático(1,18,19).

A deficiência da OTC é uma patologia que se manifesta com um quadro clínico semelhante ao de várias outras patologias que afetam os recém-nascidos; no entanto, o atraso em seu diagnóstico pode causar danos irreversíveis aos portadores dessa doença.

Quando um recém-nascido AIG, termo, com história materna negativa para infecção e que se encontrava sem alterações até as primeiras 48 horas de vida, iniciar com quadro clínico de sonolência, dificuldade para se alimentar e hipotonia, com piora clínica progressiva, a deficiência de OTC deve ser lembrada como um dos diagnósticos diferenciais. Durante a solicitação dos exames laboratoriais, deve ser solicitada a dosagem da amônia plasmática e, se esta apresentar-se aumentada, deve ser iniciado estudo metabólico imediato.

Referências bibliográficas
Título do artigo: "Deficiência de ornitina transcarbamilase: diagnóstico neonatal"
1. Brusilow SW, Horwich AL. Urea cycle enzimes. In: Scriver CR, Beaudet AL, Sly WS. ed. The metabolic and molecular bases of inherited disease. 7ª ed. New York: Mc Graw Hill; 1995.p.1187-1232.
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